quarta-feira, 6 de abril de 2016

Seguir sendo uma novidade pra mim mesma. Me capturo em vários ângulos e me espanto com tudo o que já fui e com o quanto venho descobrindo ser. Tem uma ternura grande por dentro que anda me fazendo carinho. Tenho me feito carinho por dentro pra aprender a andar melhor por fora. Tenho tomado chás de tranquilidade e carinho por mim mesma pra ver se o resto do mundo cabe em mim de uma forma mais bonita. Tenho tentado não socar tudo pra dentro pra não repetir o vômito de todas as coisas que costumavam sair de uma só vez. Engolido pequenas doses de aceitação, me esgueirado por dias de veludo e tardes de seda com vapor quente pra tentar adentrar a noite mergulhada em lavanda e alecrim. Eu tenho tido fé de que já está tudo bem e de que o exercício é manter-me bem independente de quem tenho ao meu lado. Mas de vez em quando me machuca a solidão. Quando eu consigo entender bem a solidão, discerni-la bem de todo o resto das carências é menos doído. Mas ainda assim, dói. Quero muito aprender a compartilhar minha vida com alguém. A não baixar os olhos e a abrir o peito. Tenho aprendido a eliminar um susto de nascença. Que é de me sentir absorvida, adentrada, invadida pelo desconhecido. Esse medo de não sei o quê que me impede de só ser o momento presente. Deixar o olhar vagar, deixar o olhar desfocar e abstrair-me de urgências.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Vocês precisavam saber


Eu nunca fui plena falando. Sinto que as palavras faladas perdem a clareza que possuem dentro de mim.  Não gosto desse terceiro estágio. Sentimento, forma, som. Prefiro ir só até a forma das letras que são escritas. Me representa muito mais. Dá muito mais conta daqui de dentro. Por isso, o que aqui escrevo é isso mesmo, não tentem pronunciar. É só o calor da palavra dentro de cada um. Me leiam só com sabor, cheiro e memória.
 Cheguei tarde, dada a largada. Uma Mayara aturdida, imersa, como sempre; Ampla, grande e minha. Passei por ela como sempre passo, sem medo de perder. Entrei.  turbilhão de voz, ressaca, malas, menina desconhecida pendurada numa parede. Entrei e parei, ali não tinha espaço pra macapá que eu trazia dentro de mim. Choro de van, choro de apego que logo ia cessar e eu nem sabia. Nem sabia do preenchimento iminente que cada um de vocês me ofertaria ao longo dos próximos dias. Um Jefferson a tanto conhecido que sempre me faz sentir pertencida. E ele nem sabe.Um Bráulio tão bom moço que nunca vi. Uma Bel canceriana, mas não tanto, o suficiente pra me envolver em confiança numa largada turbulenta. E ela nem sabe. Um Renato sempre ali, constante, presente, solícito. Solidez que me falta. Uma Nath que canta comigo as melhores canções que podem ser cantadas e que preenche cada momento meu de sobriedade. E ela sabe.Um Patrick que é irmão, é grande, é júpiter, é de graça e eu só quero ficar assim, abraçada nesse encontro. Uma Luar que troca por prazer, que fala sem precisar entender e que sorri com os olhos, sempre. Uma Nath mana da minha tribo, mais doce que o amor, um espelho, uma lágrima, uma paixão que brotou, e que eu só quero cuidar. Um Gui que é de outro planeta, planeta vizinho, alma gêmea, minha alma versão 2014, reciclagem necessária da vida. Um caio. Outro caio. Que foi agente significativo de mudanças em mim. Outro Caio para Outra Larissa. E ele nem sabe. Uma Samia. Duas Samias. Três Samias. Quantas forem necessárias. Pode mandar pra mim que eu quero sempre mais. Uma Lia de barco, de colo compartilhado, de rede, de abraço que aquece. Uma Vanessa que foi só surpresa e que me encheu de riso. Uma Juliana guardada num potinho que é só afeto, pintado de cores novas de nados sincronizados. Um Victor que abraça com a alma, que acolhe com o riso, criança minha debaixo das minhas asas. Uma Manu de olhos que vibram, corpo que vibra, voz que vibra e que acompanha. Acompanha muito. Acompanhou até o fim na varanda de uma fazenda e acompanha até agora com um vestido colorido de setim.
E agora aqui, o choro cessou dentro e fora de mim.  E deu lugar a vocês. Vocês em mim. Eu fui preenchida por vocês, tomada por vocês, renovada por vocês.  Massagem, sono da tarde, buraco, cerveja, cerveja, cerveja, chuva, gal, lobinho, bethania, bob, meia-noite, chapéu, follow river, neon, ana laura, mapa astral, princesa, bambolê, casa rosa, tapioca, beijão, barcos, barcos, barcos. Tudo é vocês. Lá é vocês. Aqui continua sendo vocês. Preenchimento eterno, alimento pra sempre. E vocês nem sabiam.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

vão

é que não dá pra querer ser tudo. se tento ser tudo viro pedra, fico congelada de opção. viajo entre estar e não estar, entre perceber e não perceber e não consigo me dar conta do caminho. do vão que existe entre os dois extremos. estar demais me faz quase romper por dentro, os órgãos inflam até explodir. tem dias que sou estilhaços de órgãos. isso é segredo meu. descobri que é uma forma de perdição, de labirintite, esse muito estar. não é assim. preciso da lupa, do microscópio que me permite estar muito em cada pedaço do momento estar. mas ainda não é assim. tudo que é vão me aterroriza. fico perdida em buracos, bem no fundo de todo buraco que é vão. alguma coisa me diz que vou descobrir o mistério do universo dentro de algum vão desses. algum dia desses. vou andar, andar, até que VULP. o vão e a chave do portão do mundo inteiro.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Assincronismo

Uma ternura merecida. Compartilhada . Desejada.
Não se sabe quanto tem de se andar até que o corpo relaxe.
Amorteça.
Sabe-se apenas sobre a duração dos desejos.
A faísca chega sempre.
Leve. Breve.
O fogo é tardio.
Intenso.
Não há prazo pra eternidade.
Não há acordo num mundo de assincronias.
Se espera. Se vive. Se surpreende.
Apenas se bebe. Se arrisca.
Tangencia.
Difícil esbarrar. Tudo aqui é apenas tangencial.
Semi-pronto, nunca pronto.
Perene geração.
Há que se amar as pungências.
Há que se deliciar de (sub)prazeres.
Até que já. Até que é. Até que sou.

sábado, 15 de junho de 2013

Linhas cruzadas

Ele sempre se perguntava de onde vêm as opiniões que as pessoas formam umas sobre as outras. Porque desde que se lembra, todos aqueles que de alguma maneira esbarravam com ele na vida o tinham como um homem de natureza firme. Todos o tinham como alguém de caráter claro, limites precisos e atitudes concretas. Mas ele olhava pra sua trajetória e só o que via era o inverso. Tudo o que havia construído, analisado ou tocado na vida era repleto de incongruências. Nada era assertivo. Tudo muito inconsistente. E no entanto, para todos, sempre fora fonte de certezas notórias e verdades incontestáveis. Passara 30 anos de sua vida vestido dessa maneira, porque assim o fizeram e porque não conseguia, ele próprio, arranjar outra forma de se vestir. Não via grande problema em ser o que lhe diziam sobre ele próprio. Era bom ser de natureza firme. Conhecia indivíduos de natureza fluida e não gostava nada dos rumos que a vida destes tomava. Então viveu 30 anos sendo Ele, o homem de natureza firme. E quando batia a dúvida, pois dela ninguém escapa, fazia o simples exercício de conversar com alguém que o estimasse o suficiente para lhe assegurar o título de homem de natureza firme. Como pode ser reconfortante o julgamento das pessoas que nos amam. Foi então que conheceu Ela. E 15 anos depois lembrou-se da opinião que formara acerca dela na primeira vez que a viu. Estava lá, sentada na esquina de uma rua conhecida com uma rua pouco movimentada, num vestido amarelo bem comportado, e botas de couro que davam às suas pernas um ar muito gracioso. A única coisa que destoava de todo o conjunto eram as mãos. Quando falava, balançava ritmicamente as mãos, num movimento contínuo, mas inusitado e decidido. Cada palavra vinha acompanhada de movimentos firmes das mãos, o que contrastava, de uma forma muito peculiar, com o resto harmônico e cadencioso da imagem dela. Os próximos 15 anos após o episódio de seu encontro com Ela foram os mais reveladores de sua vida.  Ela, a mulher de natureza frágil, dizia que não se lembrava de ter tido muitas opiniões acerca da vida. Nunca fora alguém que achasse muita coisa do que quer que fosse. E, no entanto, quando falava, o movimento decidido das mãos estava sempre lá, marcando cada palavra proferida por ela. Com o tempo ele entendeu que Ela não achava muita coisa nem mesmo sobre si própria e que talvez fosse essa a razão  para tamanho contraste entre suas mãos e sua vida. Foi entendendo a inconsistência da natureza dela, que Ele, o homem de natureza firme, deu-se conta da própria. A cada dia que passava ao lado dela, suas próprias linhas iam deformando-se, curvando-se, formando desenhos desconhecidos e instigantes. Iam se cruzando com as linhas tortuosas e encantadoras dela e criando estruturas libertadoras. Foram 15 anos assim, até que Ela se foi. Se foi como chegou. Fluida e viva. E Ele, ele se perdeu. Ele, o homem de natureza firme, não sabia para onde ir. Não tinha capacidade para ser o que se tornou. Era Ela, a mulher de natureza frágil, que de tanto não pensar nada, lhe emprestava tal coragem. Mas, Ele, que sempre fora apenas um por não conseguir ser diferente, não conseguia abandonar-se assim, todos os dias. Era Ela que, sem saber, lhe transmitia a leveza de se ser o que se torna. E então, Ele, o homem de natureza firme, fez jus a seu título uma última vez e tomou a  última decisão de sua vida. A decisão de deixar-se ir. Como Ela, foi-se embora também. Os que o conheciam o admiraram última vez por ter deixado o mundo de maneira firme, como ele próprio sempre fora. O que ninguém jamais saberia é que Ele, o homem de natureza firme, se foi com um único desejo latente no coração: o de ter conseguido ser o que Ela, a mulher de natureza frágil, o tornou.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Nada especial

Sabe um grito muito alto? Do tipo que estremece estruturas e trinca taças. Assim era o grito. A alma dela; a alma dela queria liberdade, ela não aceitava equívocos ou eufemismos. E quanto mais a menina tentava amenizar, sufocar a situação, com mais empenho trabalhavam seus pulmões:

“Não me importa alcançar, chegar lá, transgredir, ultrapassar. Eu quero mesmo é sentir. Nada mais que o vulgar e pulsante sentimento. De nada me serve alcançar, chegar lá, transgredir, ultrapassar. Eu quero mais é doer, esgarçar, regredir, maltratar.” 

Ensurdecer a própria alma, amortecer seus próprios sentidos. Era essa a batalha da menina que de vez em quando só queria mesmo era rir abobalhadamente de sutilezas . Mas ela precisava ouvir. Fechar os olhos, encarar o silêncio e escutar com atenção. Sem ter medo das consequências por ter sido condescendente consigo mesma. Era um jogo de fé, de se despedir da lógica e se atirar na penumbra. Ou era assim, ou se tornava de súbito vazia de si. E essa era a pior sensação. O desespero por querer e não poder compreender. Aí ela preferia mesmo era acreditar no nada. Ressignificar o nada. Encontrar sentido, criar sentido, desencavar sentido de onde não podia jorrar mais nada além do próprio nada. 
       
     “De nada me serve alcançar, chegar lá, transgredir, ultrapassar. Eu quero mais é doer, esgarçar, regredir, maltratar.”

E preferia fazer assim, repetidamente, dia após dia. Encontrando prazer na criação do seu próprio nada. 

sábado, 18 de maio de 2013

Sobre Lia e Epifania




Eu tenho uma amiga; que apesar de ser capricorniana é uma grande amiga. Ela é especial por inúmeros motivos que normalmente não consigo elencar. Mas ontem, assistindo a um filme indicado por ela, ao lado dela, me dei conta de um deles. Ela é responsável pela maior parte de minhas epifanias. A gente (eu e minha amiga) compartilha muita coisa, de semelhanças quase perfeitas a diferenças quase catastróficas. Entre as semelhanças quase perfeitas está nossa capacidade de atribuir sentido para tudo o que nos cerca, desde a mais ordinária das coisas até as grandes questões da humanidade. Isso não têm função prática nenhuma , você poderia pensar, mas o que importa mesmo é que foi essa a maneira que encontramos para sermos menos chatas e tristes. E isso já é de grande praticidade hoje em dia. Assim sendo, inútil sendo (ou não), agradeço a minha amiga pela epifania a seguir e por todas as outras que, graças a ela, ainda virão.
Existem texturas. Existem pessoas que têm texturas muito peculiares, que deixam marca e sabor em mim. Existem trejeitos especiais, trejeitos que de tão hipnotizantes, ficam gavados em meu corpo como se a mim pertencessem. Existem sutilezas, sutilezas de mãos, bocas e cabeças, que definem um ser. Meu Deus, como desejava ser detentora de certas sutilezas. Por uma noite consigo viver apenas à beira de mim, vislumbrar em mim detalhes que não são meus, mas que por me serem tão atraentes finjo que são. E acredito. E me aproprio. Que textura terei eu nas mentes que me registram? Que me vêem passar, que me vêem falar? Queria me deixar escorrer em cima dos outros. Queria, só por uns instantes, me derramar nos que me olham, e escorrer. Deixando cheiro, sabor e textura. Mas me contenho. Represo o suco que há em mim e bebo o líquido que escorre dos outros. Me embriago dos outros. Até trocar de textura com eles.
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