terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A ponte

Eis que me dou conta da existência de dois mundos. Um meu e um dos outros. O mundo que chamo de meu constitui-se de substância doce, saudosa, tradicional. Nele há espaço pra conversas íntimas, abraços quentes, lágrimas gratuitas e calafrios que gelam a espinha. Há até espaço pra cartas, fotos impressas e telefonemas. O mundo que chamo de mundo dos outros é substancialmente feito de presente. Nele sou adaptável, solúvel, homogênea, permeável. Não há espaço para singular, tudo é plural. Aqui quanto mais resumido, melhor. No meu mundo, agarro-me a mim mesma com unhas e dentes, sou pouco flexível, mas muito nobre. No mundo dos outros, aferro-me à corrente, deslizo no passo que é o passo da multidão. Sou pouco original, mas muito amigável. No mundo que chamo de meu, o tempo é o tempo da alma, da aceitação, do esperar que a porta certa se abra, da revelação genuína de meus desejos e quereres mais íntimos. No mundo que chamo de mundo dos outros, o tempo é o tempo da urgência, do fervilhar de acontecimentos, da pouca ponderação porque tem coisa que é pra já. No meu mundo, sou nítida, possuo limites claros e impossíveis de corromper. No entanto, apresento-me impenetrável. No mundo dos outros, sou tingida de todas as cores, constituída das mais diversas texturas e misturo-me com facilidade. No entanto, apresento-me nebulosa. Perder-me é inevitável. O desafio é achar a ponte constantemente e escolher pra qual lado seguir.

Um comentário:

Lia Saboia disse...

gosteis dos mundos que a ponte une.