sábado, 15 de junho de 2013

Linhas cruzadas

Ele sempre se perguntava de onde vêm as opiniões que as pessoas formam umas sobre as outras. Porque desde que se lembra, todos aqueles que de alguma maneira esbarravam com ele na vida o tinham como um homem de natureza firme. Todos o tinham como alguém de caráter claro, limites precisos e atitudes concretas. Mas ele olhava pra sua trajetória e só o que via era o inverso. Tudo o que havia construído, analisado ou tocado na vida era repleto de incongruências. Nada era assertivo. Tudo muito inconsistente. E no entanto, para todos, sempre fora fonte de certezas notórias e verdades incontestáveis. Passara 30 anos de sua vida vestido dessa maneira, porque assim o fizeram e porque não conseguia, ele próprio, arranjar outra forma de se vestir. Não via grande problema em ser o que lhe diziam sobre ele próprio. Era bom ser de natureza firme. Conhecia indivíduos de natureza fluida e não gostava nada dos rumos que a vida destes tomava. Então viveu 30 anos sendo Ele, o homem de natureza firme. E quando batia a dúvida, pois dela ninguém escapa, fazia o simples exercício de conversar com alguém que o estimasse o suficiente para lhe assegurar o título de homem de natureza firme. Como pode ser reconfortante o julgamento das pessoas que nos amam. Foi então que conheceu Ela. E 15 anos depois lembrou-se da opinião que formara acerca dela na primeira vez que a viu. Estava lá, sentada na esquina de uma rua conhecida com uma rua pouco movimentada, num vestido amarelo bem comportado, e botas de couro que davam às suas pernas um ar muito gracioso. A única coisa que destoava de todo o conjunto eram as mãos. Quando falava, balançava ritmicamente as mãos, num movimento contínuo, mas inusitado e decidido. Cada palavra vinha acompanhada de movimentos firmes das mãos, o que contrastava, de uma forma muito peculiar, com o resto harmônico e cadencioso da imagem dela. Os próximos 15 anos após o episódio de seu encontro com Ela foram os mais reveladores de sua vida.  Ela, a mulher de natureza frágil, dizia que não se lembrava de ter tido muitas opiniões acerca da vida. Nunca fora alguém que achasse muita coisa do que quer que fosse. E, no entanto, quando falava, o movimento decidido das mãos estava sempre lá, marcando cada palavra proferida por ela. Com o tempo ele entendeu que Ela não achava muita coisa nem mesmo sobre si própria e que talvez fosse essa a razão  para tamanho contraste entre suas mãos e sua vida. Foi entendendo a inconsistência da natureza dela, que Ele, o homem de natureza firme, deu-se conta da própria. A cada dia que passava ao lado dela, suas próprias linhas iam deformando-se, curvando-se, formando desenhos desconhecidos e instigantes. Iam se cruzando com as linhas tortuosas e encantadoras dela e criando estruturas libertadoras. Foram 15 anos assim, até que Ela se foi. Se foi como chegou. Fluida e viva. E Ele, ele se perdeu. Ele, o homem de natureza firme, não sabia para onde ir. Não tinha capacidade para ser o que se tornou. Era Ela, a mulher de natureza frágil, que de tanto não pensar nada, lhe emprestava tal coragem. Mas, Ele, que sempre fora apenas um por não conseguir ser diferente, não conseguia abandonar-se assim, todos os dias. Era Ela que, sem saber, lhe transmitia a leveza de se ser o que se torna. E então, Ele, o homem de natureza firme, fez jus a seu título uma última vez e tomou a  última decisão de sua vida. A decisão de deixar-se ir. Como Ela, foi-se embora também. Os que o conheciam o admiraram última vez por ter deixado o mundo de maneira firme, como ele próprio sempre fora. O que ninguém jamais saberia é que Ele, o homem de natureza firme, se foi com um único desejo latente no coração: o de ter conseguido ser o que Ela, a mulher de natureza frágil, o tornou.

2 comentários:

Lia Saboia disse...

Ué... Se ele desejava tanto ser algo, porque ele não tira da suas entranhas, por mais difícil que seja, a pequena porém potente força para dar o primeiro passinho necessário a sua transformação? porque ele não quer se exigir o esforço de lutar pelo o que ele próprio deseja para si? Porque ele desiste de si frente as resistências que lhe aparecem? Se ele está lutando por si mesmo, acho que valeria a pena a dor nas unhas e nos dentes para agarrar-se com bravura à luta por seu eu verdadeiro que está dentro e precisa da força dele e de mais ninguém, para se tornar real... O caminho para o encontro de si mesmo é doloroso e difícil, não existe outra alternativa. Mas no fim é Divino.

Marialva Ramalho disse...

Nada mais complexo que a simplicidade, e nesta, a busca por si mesmo é o maior invólucro do qual, quanto mais se tiram pétalas, trechos, caminhos, curvas, contornos, desvios...enfim... mais se refaz (se desfaz, se FAZ) e, numa necessidade de reconhecer-se, se volta aonde nunca antes havia percorrido.